Qualquer que seja aparência típica de
uma criminosa, duvido que seja qualquer coisa parecida comigo.
Um metro e sessenta, cabelos claros e
tão finos que mal dá para segurar. Olhos azuis e um rosto sem muita expressão.
Eu transpiro inocência em cada gesto tímido que faço, em cada vez que fico
vermelha quando alguém que eu não conheço me aborda. E, se por acaso aquele
sujeito mais desconfiado tiver ainda alguma sombra de duvida, é só olhar para o
bracelete em meu pulso esquerdo. Uma residente do setor três, por mais que não
faça parte da distinta elite do Complexo, é ainda assim, digna de confiança.
Mas apenas o fato de eu estar
respirando, andando e falando já é, sob todas as leis, proibido.
Devo salientar, porém, se eu costumo
aparentar inocência, não o estou fazendo nesse exato momento. Devo parecer mais
suspeita do que nunca, me esgueirando para dentro de uma área em que o alarme
de incêndio começou a tocar loucamente. Nesse momento, estou escondida em um armário
de suprimentos, acompanhada de um punhado de vassouras, enquanto esse andar é
evacuado. Em meio aos gritos agudos do alarme, consigo ouvir o som dos passos,
e posso sentir o cheiro do medo das pessoas enquanto tentam a todo custo, ficar
o mais longe possível do fogo.
Incêndios são um tipo de pesadelo coletivo
dentro do Complexo. Afinal, quando se vive no subterrâneo, não há muitos
lugares para se fugir. Na verdade, combatê-los é até simples, basta selar a área
afetada que o fogo costuma sufocar a si mesmo, mas absolutamente ninguém quer
ficar preso nesse lugar.
Mas, ao contrário dessa pessoas, eu
não tenho medo nenhum. Não porque eu seja estupidamente corajosa, mas porque eu
sei que não há fogo nenhum. Isso porque fui eu mesma que disparei o alarme.
Quando os barulhos no corredor
cessam, abro uma fresta na porta apenas o suficiente para ter um vislumbre do
corredor. Está deserto. Tentando não fazer barulho, saio pelo corredor em busca
do meu alvo. Tenho que fazer um pouco de esforço para me lembrar o local exato
da sala que tinha visto três dias atrás, pois diferentemente daquele dia, agora
o corredor está apenas iluminado pela fraca e avermelhada iluminação de emergência.
Além disso, o som do alarme faz meu cérebro latejar no mesmo ritmo do seu som
estridente.
Mesmo assim, prossigo no labirinto de
corredores do nível 14 da área B do HUB. É principalmente uma área
administrativa do governo, para todas aquelas coisas chatas e burocráticas que
não são importantes o suficiente para serem feitas no setor 1. Três dias atrás,
eu estive aqui para consertar um terminal de computador em um desses escritórios.
Tinha algo a ver com estatística, mas não era interessante o suficiente para
que eu guardasse na memória. Oficialmente, as repartições do governo deveriam
pedir assistência técnica ao departamento de TI, mas suponho que ou estavam com
pressa ou algum funcionário fez algo que não devia. De qualquer maneira, um
senhor de mais idade gordo apareceu na loja do Rob Ruivo querendo que alguém consertasse
os computadores, e uma hora depois lá estava eu.
Não era nada muito complicado, apenas
algumas placas haviam queimado e eu só precisei trocá-las. Mas não foi isso o
que me chamou a atenção, muito menos a cara de desgosto que o tal gordo fez quando
viu que quem veio salvar o pescoço dele era só uma “garotinha”, como ele mesmo
faz questão de frisar. Nada disso. O que mais me chamou a atenção foi ver que o
terminal de energia em que os computadores daquele escritório estava conectados
possuía uma trava de um modelo antigo, que eram fáceis até demais de abrir.
Descobrir aquilo quase fez valer a pena a viagem até lá.
Por fim, chego a um corredor
familiar, e não demora muito para que eu ache a sala 578. Felizmente, a porta
não está trancada, e eu rapidamente entro e fecho a porta atrás de mim e já
começo a tirar minhas ferramentas da mochila. Há três mesas na sala, cada uma
com um computador. Os computadores são máquinas enormes e pesadas, desajeitadas
em todas as maneira possíveis. Os mais velhos, aqueles que viveram antes do Cataclismo,
quando a humanidade ainda podia viver na superfície, dizem que existiam
computadores de todas as formas e tamanhos, finos, elegantes e bem mais
poderosos que os atuais. A vida de muita gente girava em torno deles, e muitos
os carregavam junto consigo para todos os lugares. Não consigo evitar de rir na
perspectiva de alguém carregando um trambolho desses por uma das avenidas movimentadas
do HUB.
O que aconteceu é que muita coisa foi
perdida durante o Cataclismo, e o que mais se lamenta a perda foi muito do
conhecimento do velho mundo. Porém, por mais que eu entenda de computadores,
não é a perda suas encarnações mais avançadas o que mais me faz falta. Há muito
mais que foi esquecido, e eu não tenho certeza se os figurões do Setor 1 acham
que faz falta.
Tenho que sacudir a cabeça para
espantar meu devaneio. Acima de tudo, eu tenho que trabalhar rápido, porque
duvido que vão levar muito tempo para perceber que o incêndio não passa de um
alarme falso. E quando isso acontecer, certamente que o Arco vai aparecer por
aqui, e não vai ter adiantado nada eu ter desativado todas as câmeras de segurança
se eles me pegarem em flagrante.
Me aproximo da caixa de aço que
protege o terminal de energia, de onde surgem os cabos que vão até os
computadores. As fechaduras mais modernas são conectadas diretamente ao sistema
do Arco, mas esses modelos ultrapassados apenas emitem um alarme sonoro quando
são abertas, e comparado com o alarme de incêndio, quando esse negócio tocar
vai parecer apenas o zumbido de um inseto. Um pequeno curto circuito, e voilá, a porta se abre como num passe de
mágica. Saco a chave de fenda do boldo e logo começo a trabalhar em soltar os
parafusos que unem os plugues ao terminal. Mais um minuto e consigo expor as
terminações de metal.
Vou até a minha mochila e tiro a
bateria portátil, que logo está conectada à tomada. Ela foi projetada para se
recarregar rapidamente, mas mesmo assim tenho que esperar, e isso faz com que
um fiozinho de tensão consiga eriçar as raízes dos meus cabelos. Afinal, o Arco
pode aparecer a qualquer momento, e eu estou fazendo justamente a segunda coisa
mais ilegal do Complexo. A primeira, como todos aqui sabem, é ser um Filho da
Supernova, e desse crime eu também sou culpada.
Pode parecer muito trabalho para
roubar alguns Watts de eletricidade, mas no mercado negro uma simples pilha pode
chegar a um preço astronômico. Na maior parte do Complexo, os dutos que abrigam
as fiações costumam ser blindados, tornado-os impossíveis de serem abertos, e todas
as residências possuem contadores que registram qualquer consumo fora do
normal. Durma com a televisão ligada e no dia seguinte um agente nada simpático
do Arco vai bater na sua porta. O jeito mais fácil de conseguir energia é com
os computadores, que apenas existem em escritórios como esse no HUB e no Setor
1. Os contadores eletrônicos que existem nas casas muitas vezes entram em pane,
e quando isso acontece, danificam os discos rígidos. Por isso, os alarmes
apenas estão instalados na caixa do terminal, fazendo com que o roubo seja
quase indetectável até que alguém analise o contador analógico. E nesse momento
eu já vou estar bem longe daqui.
Uma luz verde se acende na caixa
preta que envolve a bateria, indicando que já está carregada. Com cuidado, eu transporto
o pesado objeto e o acomodo em minha mochila. Em seguida, volto ao terminal, e
do meu outro bolso retiro dois pedaços finos de cobre e os insiro em cada polo
da tomada e em seguida os envolvo com a minha mão.
Aos poucos, uma sensação de alívio e
satisfação toma conta do meu corpo. É como sentir uma lufada de ar fresco logo
depois de estar sufocando; como encontrar água quando se está morrendo de
desidratação. A dor em minha cabeça se retrai na medida em que a energia me
invade, desde a minha mão, seguindo os caminhos de minhas vias até a ponta dos
meus pés.
Minha cabeça começa a ficar leve e
sinto que poderia flutuar. Sinto um calor bem-vindo me envolvendo e tudo, o alarme,
o Arco deixam de existir por um momento. Então logo depois sou sugada novamente
pela realidade quando me dou conta que o alarme parou de soar. Já fazia quase
uma semana que eu não me alimentava, e acabei me deixando levar um pouco
demais.
Enquanto retiro os pedaços de cobre
do terminal, observo a minha mão direita, e o brilho azul-arroxeado que a minha
pele assumiu, indicando que foi ali que a eletricidade entrou. Por um momento
me permito ver o festival de luzes e cores que se instalou em minha pele como
uma luva de neon. Devo admitir que é de uma beleza mortal: é esse o jeito mais
fácil de identificar um Filho da Supernova. De um bolso da mochila tiro um par
de luvas pretas que são o suficiente para esconder minha mão brilhante.
Fecho a caixa do terminal, recolho
todas as minhas ferramentas. O corredor do lado de fora ainda está vazio, mas
já posso ouvir zumbidos de conversas distantes dos funcionários que estão
voltando aos seus trabalhos. Já não há mais os gritos do alarme, e a iluminação
normal e branca substituiu a vermelha de antes.
Respiro fundo e ponho a minha máscara
de inocência; hora de voltar.
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