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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Capítulo 1 - Energia Roubada

Qualquer que seja aparência típica de uma criminosa, duvido que seja qualquer coisa parecida comigo.
Um metro e sessenta, cabelos claros e tão finos que mal dá para segurar. Olhos azuis e um rosto sem muita expressão. Eu transpiro inocência em cada gesto tímido que faço, em cada vez que fico vermelha quando alguém que eu não conheço me aborda. E, se por acaso aquele sujeito mais desconfiado tiver ainda alguma sombra de duvida, é só olhar para o bracelete em meu pulso esquerdo. Uma residente do setor três, por mais que não faça parte da distinta elite do Complexo, é ainda assim, digna de confiança.
Mas apenas o fato de eu estar respirando, andando e falando já é, sob todas as leis, proibido.
Devo salientar, porém, se eu costumo aparentar inocência, não o estou fazendo nesse exato momento. Devo parecer mais suspeita do que nunca, me esgueirando para dentro de uma área em que o alarme de incêndio começou a tocar loucamente. Nesse momento, estou escondida em um armário de suprimentos, acompanhada de um punhado de vassouras, enquanto esse andar é evacuado. Em meio aos gritos agudos do alarme, consigo ouvir o som dos passos, e posso sentir o cheiro do medo das pessoas enquanto tentam a todo custo, ficar o mais longe possível do fogo.
Incêndios são um tipo de pesadelo coletivo dentro do Complexo. Afinal, quando se vive no subterrâneo, não há muitos lugares para se fugir. Na verdade, combatê-los é até simples, basta selar a área afetada que o fogo costuma sufocar a si mesmo, mas absolutamente ninguém quer ficar preso nesse lugar.
Mas, ao contrário dessa pessoas, eu não tenho medo nenhum. Não porque eu seja estupidamente corajosa, mas porque eu sei que não há fogo nenhum. Isso porque fui eu mesma que disparei o alarme.
Quando os barulhos no corredor cessam, abro uma fresta na porta apenas o suficiente para ter um vislumbre do corredor. Está deserto. Tentando não fazer barulho, saio pelo corredor em busca do meu alvo. Tenho que fazer um pouco de esforço para me lembrar o local exato da sala que tinha visto três dias atrás, pois diferentemente daquele dia, agora o corredor está apenas iluminado pela fraca e avermelhada iluminação de emergência. Além disso, o som do alarme faz meu cérebro latejar no mesmo ritmo do seu som estridente.
Mesmo assim, prossigo no labirinto de corredores do nível 14 da área B do HUB. É principalmente uma área administrativa do governo, para todas aquelas coisas chatas e burocráticas que não são importantes o suficiente para serem feitas no setor 1. Três dias atrás, eu estive aqui para consertar um terminal de computador em um desses escritórios. Tinha algo a ver com estatística, mas não era interessante o suficiente para que eu guardasse na memória. Oficialmente, as repartições do governo deveriam pedir assistência técnica ao departamento de TI, mas suponho que ou estavam com pressa ou algum funcionário fez algo que não devia. De qualquer maneira, um senhor de mais idade gordo apareceu na loja do Rob Ruivo querendo que alguém consertasse os computadores, e uma hora depois lá estava eu.
Não era nada muito complicado, apenas algumas placas haviam queimado e eu só precisei trocá-las. Mas não foi isso o que me chamou a atenção, muito menos a cara de desgosto que o tal gordo fez quando viu que quem veio salvar o pescoço dele era só uma “garotinha”, como ele mesmo faz questão de frisar. Nada disso. O que mais me chamou a atenção foi ver que o terminal de energia em que os computadores daquele escritório estava conectados possuía uma trava de um modelo antigo, que eram fáceis até demais de abrir. Descobrir aquilo quase fez valer a pena a viagem até lá.
Por fim, chego a um corredor familiar, e não demora muito para que eu ache a sala 578. Felizmente, a porta não está trancada, e eu rapidamente entro e fecho a porta atrás de mim e já começo a tirar minhas ferramentas da mochila. Há três mesas na sala, cada uma com um computador. Os computadores são máquinas enormes e pesadas, desajeitadas em todas as maneira possíveis. Os mais velhos, aqueles que viveram antes do Cataclismo, quando a humanidade ainda podia viver na superfície, dizem que existiam computadores de todas as formas e tamanhos, finos, elegantes e bem mais poderosos que os atuais. A vida de muita gente girava em torno deles, e muitos os carregavam junto consigo para todos os lugares. Não consigo evitar de rir na perspectiva de alguém carregando um trambolho desses por uma das avenidas movimentadas do HUB.
O que aconteceu é que muita coisa foi perdida durante o Cataclismo, e o que mais se lamenta a perda foi muito do conhecimento do velho mundo. Porém, por mais que eu entenda de computadores, não é a perda suas encarnações mais avançadas o que mais me faz falta. Há muito mais que foi esquecido, e eu não tenho certeza se os figurões do Setor 1 acham que faz falta.
Tenho que sacudir a cabeça para espantar meu devaneio. Acima de tudo, eu tenho que trabalhar rápido, porque duvido que vão levar muito tempo para perceber que o incêndio não passa de um alarme falso. E quando isso acontecer, certamente que o Arco vai aparecer por aqui, e não vai ter adiantado nada eu ter desativado todas as câmeras de segurança se eles me pegarem em flagrante.
Me aproximo da caixa de aço que protege o terminal de energia, de onde surgem os cabos que vão até os computadores. As fechaduras mais modernas são conectadas diretamente ao sistema do Arco, mas esses modelos ultrapassados apenas emitem um alarme sonoro quando são abertas, e comparado com o alarme de incêndio, quando esse negócio tocar vai parecer apenas o zumbido de um inseto. Um pequeno curto circuito, e voilá, a porta se abre como num passe de mágica. Saco a chave de fenda do boldo e logo começo a trabalhar em soltar os parafusos que unem os plugues ao terminal. Mais um minuto e consigo expor as terminações de metal.
Vou até a minha mochila e tiro a bateria portátil, que logo está conectada à tomada. Ela foi projetada para se recarregar rapidamente, mas mesmo assim tenho que esperar, e isso faz com que um fiozinho de tensão consiga eriçar as raízes dos meus cabelos. Afinal, o Arco pode aparecer a qualquer momento, e eu estou fazendo justamente a segunda coisa mais ilegal do Complexo. A primeira, como todos aqui sabem, é ser um Filho da Supernova, e desse crime eu também sou culpada.
Pode parecer muito trabalho para roubar alguns Watts de eletricidade, mas no mercado negro uma simples pilha pode chegar a um preço astronômico. Na maior parte do Complexo, os dutos que abrigam as fiações costumam ser blindados, tornado-os impossíveis de serem abertos, e todas as residências possuem contadores que registram qualquer consumo fora do normal. Durma com a televisão ligada e no dia seguinte um agente nada simpático do Arco vai bater na sua porta. O jeito mais fácil de conseguir energia é com os computadores, que apenas existem em escritórios como esse no HUB e no Setor 1. Os contadores eletrônicos que existem nas casas muitas vezes entram em pane, e quando isso acontece, danificam os discos rígidos. Por isso, os alarmes apenas estão instalados na caixa do terminal, fazendo com que o roubo seja quase indetectável até que alguém analise o contador analógico. E nesse momento eu já vou estar bem longe daqui.
Uma luz verde se acende na caixa preta que envolve a bateria, indicando que já está carregada. Com cuidado, eu transporto o pesado objeto e o acomodo em minha mochila. Em seguida, volto ao terminal, e do meu outro bolso retiro dois pedaços finos de cobre e os insiro em cada polo da tomada e em seguida os envolvo com a minha mão.
Aos poucos, uma sensação de alívio e satisfação toma conta do meu corpo. É como sentir uma lufada de ar fresco logo depois de estar sufocando; como encontrar água quando se está morrendo de desidratação. A dor em minha cabeça se retrai na medida em que a energia me invade, desde a minha mão, seguindo os caminhos de minhas vias até a ponta dos meus pés.
Minha cabeça começa a ficar leve e sinto que poderia flutuar. Sinto um calor bem-vindo me envolvendo e tudo, o alarme, o Arco deixam de existir por um momento. Então logo depois sou sugada novamente pela realidade quando me dou conta que o alarme parou de soar. Já fazia quase uma semana que eu não me alimentava, e acabei me deixando levar um pouco demais.
Enquanto retiro os pedaços de cobre do terminal, observo a minha mão direita, e o brilho azul-arroxeado que a minha pele assumiu, indicando que foi ali que a eletricidade entrou. Por um momento me permito ver o festival de luzes e cores que se instalou em minha pele como uma luva de neon. Devo admitir que é de uma beleza mortal: é esse o jeito mais fácil de identificar um Filho da Supernova. De um bolso da mochila tiro um par de luvas pretas que são o suficiente para esconder minha mão brilhante.
Fecho a caixa do terminal, recolho todas as minhas ferramentas. O corredor do lado de fora ainda está vazio, mas já posso ouvir zumbidos de conversas distantes dos funcionários que estão voltando aos seus trabalhos. Já não há mais os gritos do alarme, e a iluminação normal e branca substituiu a vermelha de antes.

Respiro fundo e ponho a minha máscara de inocência; hora de voltar.

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