O nome dela
era Carinae.
Era um nome
bonito, se você quer saber a minha opinião. Por algum motivo ele sempre me
relembra uma mulher de olhos azuis, ainda encantada com o primeiro amor, aquele
breve momento antes da primeira decepção.
Mas ela não
era nenhuma mulher. Era uma estrela.
E eu digo no
passado porque ela morreu. E, quando morreu, causou toda essa confusão em que
estamos.
A sete mil e
quinhentos anos-luz de distância (e isso é muito longe, mesmo), na nébula de
Carina, ficava uma estrela chamada Eta Carinae. Por milhões e milhões de anos,
ela brilhou, e brilhou muito mais que uma estrela normal, bom, pois ela era
muito maior que uma estrela, digamos, normal. Mas não pense que a vida de uma
estrela é só ficar lá, posando pra telescópios e coisa e tal. Nada disso. A
vida de uma estrela é uma constante luta contra si mesma. Fusão nuclear e
gravidade brigam com todas as forças para ver quem tem mais poder. Mas o
destino a que todas as grande estrelas estão condenadas é que, no fim, a
gravidade sempre vence.
E a estrela
morre, ela vira uma Supernova.
Apesar de ser
uma explosão bem grande – o que dá num funeral pra lá de animado -, não seria o
suficiente para atingir um planeta que estivesse tão distante como o nosso. Mas
isso não é tudo, claro. Existe também a emissão de raios Gama, que são um feixe
de energia expelida dos polos magnéticos da estrela. Esses sim chegam bem
longe. Eles correm como uma bala perdida na velocidade da luz, procurando por
sua próxima vitima.
E essa arma
estava apontada justamente para a Terra.
Pouca gente
aqui no Complexo, depois de oitenta anos, estava viva quando houve o
Cataclismo. Mesmo assim, aqui e ali dá pra ouvir alguém relembrando, ou mesmo
recontando histórias de seus pais e avós. Cada um tem uma versão diferente, mas
todas as historias tem algo em comum: não houve nenhum aviso. Uma noite
simplesmente tudo se acendeu, e foi o fim.
Não foi aquela
coisa cinematográfica, pra falar a verdade. A terra na tremeu, o oceano não se
levantou. Só parecia que Deus tinha ligado o interruptor do universo. Bom,
claro, no primeiro impacto todos os sistemas elétricos e eletrônicos fritaram,
mas em geral não foi nenhuma grande catástrofe.
Muita gente
até achou que era um milagre, o juízo final, a volta do messias e coisa e tal. Saiam
as ruas rezando ao seu deus, seja ele qual fosse. Deviam ter rezado por uma
morte rápida, pois os meses que se seguiram foram uma boa estadia no inferno.
Começou que a
atmosfera foi quase toda destruída. A camada de ozônio foi fritada de imediato,
e a radiação fez com que o nitrogênio reagisse formando uma poeira que encobriu
todo o planeta. Não demorou muito para que tudo o que existisse virasse um
deserto congelado.
Quem
sobreviveu mais de alguns dias, e que não morreu por causa da radiação, ou
morreu de frio, ou de fome, ou ainda morreu na mãos de outros sobreviventes no
caos social que se seguiu. Alguns tiveram sorte e foram resgatados pelo
exército e levados para o Complexo, que tinha sido construído no caso de uma
guerra nuclear estourasse.
Seria uma boa
historia de sobrevivência, da humanidade que sempre dá um jeito de continuar.
Seria.
Pois foi aí
também que surgiram os Filhos da Supernova.
Ninguém sabe
exatamente quem deu esse nome a eles, mas até onde eu saiba, nós éramos (nós
somos, aliás) como todo e qualquer humano, Tirando o fato de que nos
alimentamos de energia pura, é claro. Mas no geral, temos duas pernas, bois
braços e até um cérebro que só pensa besteira, como todos os outros.
Mas
aparentemente, para todos os fins, nós somos os aliens do mal que trouxeram o
apocalipse na bagagem.
Tinha sido nos
primeiros dia depois do Cataclismo que os primeiros foram encontrados. Enquanto
as pessoas que não tinham abrigo sucumbiam aos montes à radiação, eles
sobreviveram. No geral, eram crianças de um a quatro anos, geralmente
encontradas por soldados chorando junto aos corpos de seus pais. Mas um
detalhe: eles brilhavam, brilhavam como um sinal de neon numa noite escura,
brilhavam como um holofote em sua potência máxima.
Os primeiros
tempos no Complexo tinham sido difíceis. Pouca água, pouco alimento, pouco ar.
E pouca energia também. Logo os Filhos da Supernova foram acusados de estarem
tirando os recursos dos “humanos de verdade”, e sua fama de insaciáveis
encrenqueiros não ajudava em nada. Com o tempo e com as tensões aumentando, o
Governo decidiu que eles deveriam ser mandados para um outro lugar, que ficou
conhecido como Estrela Negra, em uma localização secreta. Mas isso não bastou
para elimina-los. Mais filhos da Supernova, por algum motivo, continuaram a
aparecer espontaneamente. Aí foi que toda a perseguição começou, e chegamos
aonde estamos agora.
Tudo
por causa de uma estrela, e o dia em que ela achou que devia morrer.
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