Páginas

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Capítulo 2 - O legado de uma estrela

O nome dela era Carinae.
Era um nome bonito, se você quer saber a minha opinião. Por algum motivo ele sempre me relembra uma mulher de olhos azuis, ainda encantada com o primeiro amor, aquele breve momento antes da primeira decepção.
Mas ela não era nenhuma mulher. Era uma estrela.
E eu digo no passado porque ela morreu. E, quando morreu, causou toda essa confusão em que estamos.
A sete mil e quinhentos anos-luz de distância (e isso é muito longe, mesmo), na nébula de Carina, ficava uma estrela chamada Eta Carinae. Por milhões e milhões de anos, ela brilhou, e brilhou muito mais que uma estrela normal, bom, pois ela era muito maior que uma estrela, digamos, normal. Mas não pense que a vida de uma estrela é só ficar lá, posando pra telescópios e coisa e tal. Nada disso. A vida de uma estrela é uma constante luta contra si mesma. Fusão nuclear e gravidade brigam com todas as forças para ver quem tem mais poder. Mas o destino a que todas as grande estrelas estão condenadas é que, no fim, a gravidade sempre vence.
E a estrela morre, ela vira uma Supernova.
Apesar de ser uma explosão bem grande – o que dá num funeral pra lá de animado -, não seria o suficiente para atingir um planeta que estivesse tão distante como o nosso. Mas isso não é tudo, claro. Existe também a emissão de raios Gama, que são um feixe de energia expelida dos polos magnéticos da estrela. Esses sim chegam bem longe. Eles correm como uma bala perdida na velocidade da luz, procurando por sua próxima vitima.
E essa arma estava apontada justamente para a Terra.
Pouca gente aqui no Complexo, depois de oitenta anos, estava viva quando houve o Cataclismo. Mesmo assim, aqui e ali dá pra ouvir alguém relembrando, ou mesmo recontando histórias de seus pais e avós. Cada um tem uma versão diferente, mas todas as historias tem algo em comum: não houve nenhum aviso. Uma noite simplesmente tudo se acendeu, e foi o fim.
Não foi aquela coisa cinematográfica, pra falar a verdade. A terra na tremeu, o oceano não se levantou. Só parecia que Deus tinha ligado o interruptor do universo. Bom, claro, no primeiro impacto todos os sistemas elétricos e eletrônicos fritaram, mas em geral não foi nenhuma grande catástrofe.
Muita gente até achou que era um milagre, o juízo final, a volta do messias e coisa e tal. Saiam as ruas rezando ao seu deus, seja ele qual fosse. Deviam ter rezado por uma morte rápida, pois os meses que se seguiram foram uma boa estadia no inferno.
Começou que a atmosfera foi quase toda destruída. A camada de ozônio foi fritada de imediato, e a radiação fez com que o nitrogênio reagisse formando uma poeira que encobriu todo o planeta. Não demorou muito para que tudo o que existisse virasse um deserto congelado.
Quem sobreviveu mais de alguns dias, e que não morreu por causa da radiação, ou morreu de frio, ou de fome, ou ainda morreu na mãos de outros sobreviventes no caos social que se seguiu. Alguns tiveram sorte e foram resgatados pelo exército e levados para o Complexo, que tinha sido construído no caso de uma guerra nuclear estourasse.
Seria uma boa historia de sobrevivência, da humanidade que sempre dá um jeito de continuar. Seria.
Pois foi aí também que surgiram os Filhos da Supernova.
Ninguém sabe exatamente quem deu esse nome a eles, mas até onde eu saiba, nós éramos (nós somos, aliás) como todo e qualquer humano, Tirando o fato de que nos alimentamos de energia pura, é claro. Mas no geral, temos duas pernas, bois braços e até um cérebro que só pensa besteira, como todos os outros.
Mas aparentemente, para todos os fins, nós somos os aliens do mal que trouxeram o apocalipse na bagagem.
Tinha sido nos primeiros dia depois do Cataclismo que os primeiros foram encontrados. Enquanto as pessoas que não tinham abrigo sucumbiam aos montes à radiação, eles sobreviveram. No geral, eram crianças de um a quatro anos, geralmente encontradas por soldados chorando junto aos corpos de seus pais. Mas um detalhe: eles brilhavam, brilhavam como um sinal de neon numa noite escura, brilhavam como um holofote em sua potência máxima.
Os primeiros tempos no Complexo tinham sido difíceis. Pouca água, pouco alimento, pouco ar. E pouca energia também. Logo os Filhos da Supernova foram acusados de estarem tirando os recursos dos “humanos de verdade”, e sua fama de insaciáveis encrenqueiros não ajudava em nada. Com o tempo e com as tensões aumentando, o Governo decidiu que eles deveriam ser mandados para um outro lugar, que ficou conhecido como Estrela Negra, em uma localização secreta. Mas isso não bastou para elimina-los. Mais filhos da Supernova, por algum motivo, continuaram a aparecer espontaneamente. Aí foi que toda a perseguição começou, e chegamos aonde estamos agora.

                Tudo por causa de uma estrela, e o dia em que ela achou que devia morrer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário