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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Capítulo 3 - Pelo preço certo

- Por favor, não me diga que foi você que fez toda a área B ser evacuada! – Foi a primeira coisa que Rob me disse assim que voltei à loja. A cara de quem comeu uma porção de proteína que passou e muito do ponto de ser aceitável denotava o seu tom, dava para notar que as suas orelhas estavam levemente coradas de raiva. Talvez o alarme de incêndio não tenha sido uma ideia tão boa assim.
- Ah, dá um tempo, - respondi, tentando parecer mais despreocupada do que realmente estava. – Esses alarmes tão tocando o tempo todo! Até parece que ia aparecer todo o Setor 7 aqui por isso.
Isso era só meia verdade, porque parecia que metade do Arco veio mesmo para o Mercado. Eles pareciam estar interrogando os funcionários da área B antes que voltassem. Um agente até me parou, mas eu já estava com a história na ponta da língua da tragédia que foi quando eu, uma pobre garota apaixonada do Setor 3 foi até lá para contar ao namorado que esperava um rebento de sua relação, mas ele não ficou tão feliz quando descobriu quanto eu gostaria, e me escondi no banheiro para chorar, e fiquei presa por causa do alarme. Até agarrei o braço dele e chorei histericamente, até que o agente ficou extremamente constrangido e me deixou ir.
Pode ser até falta de modéstia, mas se aqui não assistíssemos apenas a filmes de oitenta anos atrás, reprisados à exaustão, bem que eu poderia me dar bem nesse negócio de ser atriz.
Em outro momento, Rob teria rido muito da minha atuação, mas algo me diz que o clima não está para historias engraçadas.
No lugar disso, passo pela bancada da frente da loja, onde Rob estava imerso em uma placa de circuitos de uma televisão de tubo praticamente jurássica e vou até o fundo da loja e abro a minha mochila. Retiro a bateria e a ergo no ar, sacudindo-a como se fosse um troféu. Meu chefe não pôde evitar de que um pequeno sorriso se instale no canto de sua boca, provavelmente imaginando quanto dinheiro minha pequena excursão vai render. No segundo, seguinte, no entanto, o sorriso dele azeda.
- Ellie, teu cérebro derreteu, é? Esconde esse negócio! – ele me diz, meio sussurrando, meio dando sermão. Só o fato de ter uma bateria, ainda mais uma desse tamanho, não é só ilegal, mas como valiosa. Muita gente cortaria sua garganta sem pensar duas vezes para pôr as mãos nela. Por outro lado, a bateria foi inteligentemente disfarçada de uma caixa-cofre, que mesmo que atraia cobiça, ao menos ainda parece estar dentro da lei.
Não consigo evitar de rir da cara que ele fez.
- Sossega! Eles nem me viram... Você tá começando a ficar paranoico, hein? – eu disse, enquanto me sentava no banco perto da bancada, meu diafragma já ardendo do esforço.
- Um pouco de paranoia ia ser um bom remédio pra essa tua arrogância. – ele me respondeu, sério. Será que eu notei um tom a mais de preocupação em sua voz? Claro, mais preocupação de ser pego em suas “atividades” do que comigo. - Se o Arco aparecer aqui na loja, eu não ia demorar dois segundos pra te vender e toda tua família se isso for salvar o meu pescoço.
- Família? Por acaso você tá falando da minha mãe? Pelo preço certo eu mesma vendo ela, faço até um bom desconto! – Pronto, venci. Com essa última ele não pode resistir e teve que rir junto comigo. Já animamos muita horas em que a loja estava parada contando histórias nada lisonjeiras sobre a minha mãe. Rob trabalhou por muitos anos no mesmo bar que ela, e com a, digamos, personalidade que ela tem, nunca fez muitos amigos entre aqueles que ela não podia dominar com um simples vislumbre de seu decote.
Porém, não durou muito tempo. Com a mesma velocidade em que saiu, a sombra em seu rosto retornou.
- Ellie, eu to falando sério. Você trabalha comigo há o que? Quatro anos?
Balancei a cabeça para concordar. Quatro anos atrás, Rob tinha me encontrado vagando pelo Mercado, tentando da forma mais patética possível encontrar um traficante de energia. Do jeito que eu estava, com o rosto encovado e os olhos vermelhos, era só questão de tempo até o Arco me encontrar. Na verdade eu tive muita sorte.
Naquela época, eu era trinta centímetros mais baixa e bem menos esperta. Eu tinha acabado de descobrir o que eu era, e isso parecia o fim do mundo. Quer dizer, eu tinha sido testada quando nasci como todo mundo, porque eles não tinham descoberto então? Eu coçava desesperadamente a pele queimada nas costas da minha mão em busca de uma resposta, mas o fato era que eu tinha, de repente, passado de apenas uma garota normal do Setor 3, cujas únicas peculiaridades era ser um pouco solitária e ter uma mãe negligente para ser da pior espécie de criminoso que existe o único mundo que já conheci.
No começo eu acreditei que era algo como uma gripe, que logo passaria e eu voltaria a ser normal, desde que eu não me alimentasse de eletricidade novamente. Não demorou nada para eu ver que isso era bobagem. Aos poucos, a visita ao refeitório do setor 3, que, mesmo nunca tendo sido lá muita agradável, fora se transformando em tortura. A comida já não alimentava, e logo eu me via tentando me alimentar até da energia estática que ficava na tela da televisão. Logo eu comecei a parecer cadavérica, e já não conseguia mais dormir. Toda a minha vida passou a girar em torno da eletricidade.
Eu nunca tinha ido bem na escola, mas até isso eu consegui piorar. Claro que minha mãe nunca percebeu nada, pois como de costume estava sempre envolvida demais em seu alpinismo social. No limite do meu desespero, resolvi tentar ir até o mercado, com todo o pouco de dinheiro que eu tinha juntado tentar comprar uma pilha que fosse. Mas é claro que eu não tinha a mínima ideia de onde começar.
Foi aí que Rob me encontrou.
Ele tinha me reconhecido de algumas vezes que a minha mãe foi obrigada me levar junto para o trabalho. Rob nunca me perguntou nada. Ele simplesmente sabia o que eu era, e logo eu estava na loja dele, que ele havia aberto há pouco tempo. Hoje em dia, talvez eu tivesse pensado duas vezes antes de acompanhá-lo. Quer dizer, ele sempre teve uma aparência um pouco estranha, com as orelhas cobertas de piercings, rosto fino e o cabelo descolorido. Aliás, seus companheiros de negócios o chamam de Ruivo, o que eu nunca entendi, pois por trás de toda a água oxigenada ele tem o cabelo preto. Mas, da mesma maneira que ele nunca comenta sobre sua vida pessoal ou sobre a família que ele se recusa a manter contato, ele nunca me explicou a origem do apelido. De qualquer maneira, no momento o desespero falou mais alto.
Ele apenas sorriu e me ofereceu um objeto, que eu demorei alguns segundos para entender que era uma bateria. Depois disso, ele comentou, como se estivesse comentando a última fofoca do Mercado, que precisava de uma assistente para a loja. Eu ainda estava meio tonta depois de finalmente poder me alimentar depois de semanas de privação, mas aceitei na hora. Por algum motivo eu confiava nele, mesmo que ele obviamente estivesse envolvido em atividades criminosas.
Rob não era um Filho da Supernova, isso eu não demorei para perceber. Ele apenas mantinha a oficina como fachada para ser fornecedor dos traficantes. Mesmo assim, foi ele que me ensinou a hackear os sistemas de segurança para poder abrir terminais de energia sem ser detectada. Ele também me ensinou como enganar o teste que o Arco aplica em todos os cidadãos do Complexo para descobrir se são ou não Supernovas. As duas queimaduras a mais nas costas da minha mão são a lembrança constante de como esse conhecimento salvou a minha vida.
Até o ano passado trabalhei aqui todos os dias após a escola. Ir à escola e estar no meu compartimento com minha mãe podiam ser uma tortura, mas estar na loja era a melhor parte do meu dia. Pela primeira vez na vida eu me sentia em casa. Quando fiz dezesseis, como todos no Complexo, teria que escolher um emprego, e desde então pude trabalhar aqui o dia inteiro. Tenho que admitir que a minha poderia ter sido bem pior.
- E nesse tempo todo você alguma vez viu o Arco batendo nessa porta? – Rob continuou, me trazendo de volta à realidade. Balancei a cabeça, agora negativamente. Ele prosseguiu. – Isso não é sorte. Eu aposto com você que eles sabem que a gente não faz só consertos de TV aqui. Mas eles sabem que nós somos peixes pequenos, que se eles querem pegar os Supernovas eles tem que ir atrás dos traficantes, então é bom pra eles deixarem a gente continuar no negócio. Mas de qualquer jeito, eu nunca, jamais chamei a atenção pro meu negócio. Você sabe o porquê? O povo odeia os Supernovas. São eles que eu temo. O dia que correr o boato sobre o que a gente faz, não vai demorar pra ter uma multidão nessa porta pra nos linchar. Aí sim que o Arco vai ter que tomar uma atitude, e sinto muito Ellie, mas se isso chegar a acontecer quem vai levar a pior é você.
Engoli em seco. Eu sabia de tudo isso, é claro, mas ouvir isso de Rob é como levar um soco na boca do estômago. Desvio o olhar, pela primeira vez envergonhada pela minha inconsequência. Depois da centésima vez roubando energia sem ser pega, é fácil cair no excesso de confiança.
Rob delicadamente pega no meu queixo e me força a olhar para ele, no meio daqueles olhos verdes pintados de castanho. Se ele não fosse meu chefe, eu até acharia esses olhos bem atraentes.
- Eu sei que você acha que eu só me importo com você no quesito da inconveniência que seria treinar outro assistente. Bom e seria bem inconveniente mesmo – ele disse, com um sorriso que seus olhos não acompanharam – Mas eu falo de coração que eu não quero que o Arco a leve para esse buraco que eles levam todos do seu tipo e faze o que quer que eles façam com vocês.
Eu sinto meus olhos arderem um pouco. Droga, ele está conseguindo mesmo me fazer sentir culpada.
- Sabe o que você precisa? Ter algo com o que se importar. Aquela vadia que te criou não te ensinou nada, mas eu ainda acho que você pode ter um pouco de felicidade na vida. Sabe, você devia sair por aí, ver gente, arrumar amigos de verdade. Se apaixonar. Isso é falta de sexo, você sabe?
Tive que dar um tapa bem dado na lateral do braço dele, enquanto fazia o equivalente sonoro a revirar os olhos.
- Você tá se oferecendo, é?
- Claro, se você crescesse uns vinte centímetros, criasse barba e se magicamente aparecesse mais alguma coisa no meio das suas pernas, quem sabe? Peito você já não tem mesmo, né.
- HA-HA – eu disse largando a minha melhor imitação de risada sarcástica, o que fez com que fosse a vez de Rob começar a rir histericamente. Fiquei aliviada pelo aparente fim do sermão dele.- Bom, quem sabe? Talvez os Supernovas virem hermafroditas depois dos vinte.

- Ellie, você não tem jeito mesmo.

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