- Por favor,
não me diga que foi você que fez toda a área B ser evacuada! – Foi a primeira
coisa que Rob me disse assim que voltei à loja. A cara de quem comeu uma porção
de proteína que passou e muito do ponto de ser aceitável denotava o seu tom,
dava para notar que as suas orelhas estavam levemente coradas de raiva. Talvez
o alarme de incêndio não tenha sido uma ideia tão boa assim.
- Ah, dá um
tempo, - respondi, tentando parecer mais despreocupada do que realmente estava.
– Esses alarmes tão tocando o tempo todo! Até parece que ia aparecer todo o Setor
7 aqui por isso.
Isso era só meia
verdade, porque parecia que metade do Arco veio mesmo para o Mercado. Eles
pareciam estar interrogando os funcionários da área B antes que voltassem. Um
agente até me parou, mas eu já estava com a história na ponta da língua da
tragédia que foi quando eu, uma pobre garota apaixonada do Setor 3 foi até lá
para contar ao namorado que esperava um rebento de sua relação, mas ele não
ficou tão feliz quando descobriu quanto eu gostaria, e me escondi no banheiro
para chorar, e fiquei presa por causa do alarme. Até agarrei o braço dele e
chorei histericamente, até que o agente ficou extremamente constrangido e me
deixou ir.
Pode ser até
falta de modéstia, mas se aqui não assistíssemos apenas a filmes de oitenta
anos atrás, reprisados à exaustão, bem que eu poderia me dar bem nesse negócio
de ser atriz.
Em outro
momento, Rob teria rido muito da minha atuação, mas algo me diz que o clima não
está para historias engraçadas.
No lugar
disso, passo pela bancada da frente da loja, onde Rob estava imerso em uma
placa de circuitos de uma televisão de tubo praticamente jurássica e vou até o
fundo da loja e abro a minha mochila. Retiro a bateria e a ergo no ar, sacudindo-a
como se fosse um troféu. Meu chefe não pôde evitar de que um pequeno sorriso se
instale no canto de sua boca, provavelmente imaginando quanto dinheiro minha
pequena excursão vai render. No segundo, seguinte, no entanto, o sorriso dele
azeda.
- Ellie, teu
cérebro derreteu, é? Esconde esse negócio! – ele me diz, meio sussurrando, meio
dando sermão. Só o fato de ter uma bateria, ainda mais uma desse tamanho, não é
só ilegal, mas como valiosa. Muita gente cortaria sua garganta sem pensar duas
vezes para pôr as mãos nela. Por outro lado, a bateria foi inteligentemente
disfarçada de uma caixa-cofre, que mesmo que atraia cobiça, ao menos ainda
parece estar dentro da lei.
Não consigo
evitar de rir da cara que ele fez.
- Sossega!
Eles nem me viram... Você tá começando a ficar paranoico, hein? – eu disse,
enquanto me sentava no banco perto da bancada, meu diafragma já ardendo do
esforço.
- Um pouco de paranoia
ia ser um bom remédio pra essa tua arrogância. – ele me respondeu, sério. Será
que eu notei um tom a mais de preocupação em sua voz? Claro, mais preocupação
de ser pego em suas “atividades” do que comigo. - Se o Arco aparecer aqui na
loja, eu não ia demorar dois segundos pra te vender e toda tua família se isso
for salvar o meu pescoço.
- Família? Por
acaso você tá falando da minha mãe? Pelo preço certo eu mesma vendo ela, faço
até um bom desconto! – Pronto, venci. Com
essa última ele não pode resistir e teve que rir junto comigo. Já animamos
muita horas em que a loja estava parada contando histórias nada lisonjeiras
sobre a minha mãe. Rob trabalhou por muitos anos no mesmo bar que ela, e com a,
digamos, personalidade que ela tem, nunca fez muitos amigos entre aqueles que
ela não podia dominar com um simples vislumbre de seu decote.
Porém, não
durou muito tempo. Com a mesma velocidade em que saiu, a sombra em seu rosto
retornou.
- Ellie, eu to
falando sério. Você trabalha comigo há o que? Quatro anos?
Balancei a cabeça para concordar.
Quatro anos atrás, Rob tinha me encontrado vagando pelo Mercado, tentando da
forma mais patética possível encontrar um traficante de energia. Do jeito que
eu estava, com o rosto encovado e os olhos vermelhos, era só questão de tempo
até o Arco me encontrar. Na verdade eu tive muita sorte.
Naquela época,
eu era trinta centímetros mais baixa e bem menos esperta. Eu tinha acabado de descobrir
o que eu era, e isso parecia o fim do mundo. Quer dizer, eu tinha sido testada
quando nasci como todo mundo, porque eles não tinham descoberto então? Eu
coçava desesperadamente a pele queimada nas costas da minha mão em busca de uma
resposta, mas o fato era que eu tinha, de repente, passado de apenas uma garota
normal do Setor 3, cujas únicas peculiaridades era ser um pouco solitária e ter
uma mãe negligente para ser da pior espécie de criminoso que existe o único
mundo que já conheci.
No começo eu
acreditei que era algo como uma gripe, que logo passaria e eu voltaria a ser normal,
desde que eu não me alimentasse de eletricidade novamente. Não demorou nada
para eu ver que isso era bobagem. Aos poucos, a visita ao refeitório do setor
3, que, mesmo nunca tendo sido lá muita agradável, fora se transformando em
tortura. A comida já não alimentava, e logo eu me via tentando me alimentar até
da energia estática que ficava na tela da televisão. Logo eu comecei a parecer
cadavérica, e já não conseguia mais dormir. Toda a minha vida passou a girar em
torno da eletricidade.
Eu nunca tinha
ido bem na escola, mas até isso eu consegui piorar. Claro que minha mãe nunca
percebeu nada, pois como de costume estava sempre envolvida demais em seu
alpinismo social. No limite do meu desespero, resolvi tentar ir até o mercado,
com todo o pouco de dinheiro que eu tinha juntado tentar comprar uma pilha que
fosse. Mas é claro que eu não tinha a mínima ideia de onde começar.
Foi aí que Rob
me encontrou.
Ele tinha me
reconhecido de algumas vezes que a minha mãe foi obrigada me levar junto para o
trabalho. Rob nunca me perguntou nada. Ele simplesmente sabia o que eu era, e
logo eu estava na loja dele, que ele havia aberto há pouco tempo. Hoje em dia,
talvez eu tivesse pensado duas vezes antes de acompanhá-lo. Quer dizer, ele
sempre teve uma aparência um pouco estranha, com as orelhas cobertas de
piercings, rosto fino e o cabelo descolorido. Aliás, seus companheiros de
negócios o chamam de Ruivo, o que eu nunca entendi, pois por trás de toda a
água oxigenada ele tem o cabelo preto. Mas, da mesma maneira que ele nunca
comenta sobre sua vida pessoal ou sobre a família que ele se recusa a manter
contato, ele nunca me explicou a origem do apelido. De qualquer maneira, no
momento o desespero falou mais alto.
Ele apenas
sorriu e me ofereceu um objeto, que eu demorei alguns segundos para entender
que era uma bateria. Depois disso, ele comentou, como se estivesse comentando a
última fofoca do Mercado, que precisava de uma assistente para a loja. Eu ainda
estava meio tonta depois de finalmente poder me alimentar depois de semanas de
privação, mas aceitei na hora. Por algum motivo eu confiava nele, mesmo que ele
obviamente estivesse envolvido em atividades criminosas.
Rob não era um
Filho da Supernova, isso eu não demorei para perceber. Ele apenas mantinha a
oficina como fachada para ser fornecedor dos traficantes. Mesmo assim, foi ele
que me ensinou a hackear os sistemas de segurança para poder abrir terminais de
energia sem ser detectada. Ele também me ensinou como enganar o teste que o
Arco aplica em todos os cidadãos do Complexo para descobrir se são ou não
Supernovas. As duas queimaduras a mais nas costas da minha mão são a lembrança constante
de como esse conhecimento salvou a minha vida.
Até o ano
passado trabalhei aqui todos os dias após a escola. Ir à escola e estar no meu
compartimento com minha mãe podiam ser uma tortura, mas estar na loja era a
melhor parte do meu dia. Pela primeira vez na vida eu me sentia em casa. Quando
fiz dezesseis, como todos no Complexo, teria que escolher um emprego, e desde
então pude trabalhar aqui o dia inteiro. Tenho que admitir que a minha poderia
ter sido bem pior.
- E nesse
tempo todo você alguma vez viu o Arco batendo nessa porta? – Rob continuou, me
trazendo de volta à realidade. Balancei a cabeça, agora negativamente. Ele
prosseguiu. – Isso não é sorte. Eu aposto com você que eles sabem que a gente
não faz só consertos de TV aqui. Mas eles sabem que nós somos peixes pequenos,
que se eles querem pegar os Supernovas eles tem que ir atrás dos traficantes,
então é bom pra eles deixarem a gente continuar no negócio. Mas de qualquer
jeito, eu nunca, jamais chamei a atenção pro meu negócio. Você sabe o porquê? O
povo odeia os Supernovas. São eles que eu temo. O dia que correr o boato sobre
o que a gente faz, não vai demorar pra ter uma multidão nessa porta pra nos linchar.
Aí sim que o Arco vai ter que tomar uma atitude, e sinto muito Ellie, mas se
isso chegar a acontecer quem vai levar a pior é você.
Engoli em
seco. Eu sabia de tudo isso, é claro, mas ouvir isso de Rob é como levar um
soco na boca do estômago. Desvio o olhar, pela primeira vez envergonhada pela
minha inconsequência. Depois da centésima vez roubando energia sem ser pega, é
fácil cair no excesso de confiança.
Rob
delicadamente pega no meu queixo e me força a olhar para ele, no meio daqueles
olhos verdes pintados de castanho. Se ele não fosse meu chefe, eu até acharia
esses olhos bem atraentes.
- Eu sei que você
acha que eu só me importo com você no quesito da inconveniência que seria
treinar outro assistente. Bom e seria bem inconveniente mesmo – ele disse, com
um sorriso que seus olhos não acompanharam – Mas eu falo de coração que eu não
quero que o Arco a leve para esse buraco que eles levam todos do seu tipo e
faze o que quer que eles façam com vocês.
Eu sinto meus
olhos arderem um pouco. Droga, ele está conseguindo mesmo me fazer sentir
culpada.
- Sabe o que você
precisa? Ter algo com o que se importar. Aquela vadia que te criou não te
ensinou nada, mas eu ainda acho que você pode ter um pouco de felicidade na
vida. Sabe, você devia sair por aí, ver gente, arrumar amigos de verdade. Se
apaixonar. Isso é falta de sexo, você sabe?
Tive que dar
um tapa bem dado na lateral do braço dele, enquanto fazia o equivalente sonoro
a revirar os olhos.
- Você tá se
oferecendo, é?
- Claro, se você
crescesse uns vinte centímetros, criasse barba e se magicamente aparecesse mais
alguma coisa no meio das suas pernas, quem sabe? Peito você já não tem mesmo,
né.
- HA-HA – eu
disse largando a minha melhor imitação de risada sarcástica, o que fez com que
fosse a vez de Rob começar a rir histericamente. Fiquei aliviada pelo aparente
fim do sermão dele.- Bom, quem sabe? Talvez os Supernovas virem hermafroditas
depois dos vinte.
- Ellie, você
não tem jeito mesmo.
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