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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Capítulo 5 - Uma estrela tem que saber atuar

Não que fosse o suficiente para estragar o meu dia, mas não posso evitar de ficar para baixo. Rob sabe que não pode ficar me dizendo esse tipo de coisa. Eu ri, fiz piada, mas foi para encerrar o assunto de vez, porque eu não queria ter essa discussão com ele pela milionésima vez. O isolamento pra mim não é opcional. Eu estou constantemente assombrada pelo risco de ser a qualquer momento levada pelo Arco, e ter mais gente perto de mim significa mais gente que pode entregar o meu segredo.
E nem vou falar de outros Supernovas. Eu prefiro manter minha distância deles. Aliás, por mais que eu critique minha mãe, se não fosse pelo bem sucedido golpe da barriga que ela aplicou em um dos Administradores, provavelmente eu estaria no Setor 4, junto com noventa e nove por cento dos Filhos da Supernova do Complexo, talvez me prostituindo por algumas pilhas como muitas Supernovas jovens acabam fazendo.
Quando chega a noite, me despeço de Rob e começo a minha jornada pelo Mercado para chegar ao Setor 3, enquanto ele permanece para terminar de fechar a loja. Não sei o que as pessoas do mundo antigo iriam achar do ridículo substituto que chamamos aqui de noite. Naquela época, a noite era quando o sol sumia, e o céu ficava escuro e as estrelas e a lua assumiam o seu posto para vigiar a humanidade. Aqui, a “noite” é quando as luzes ficam dez por cento mais fracas e algumas poucas atividades não essenciais são interrompidas até o outro “dia”.
Mas, para quase todos nós é tudo o que conhecemos. Eu nunca senti o sol tocar a minha pele, nem nunca vi as estrelas a não ser em meus sonhos.  Nunca saberemos o que estamos perdendo. Talvez seja melhor assim.
Ao me aproximar do chão do mercado, começo a notar uma movimentação um pouco além do normal. A essa hora, a maioria dos vendedores que habitam o fundo do grande átrio que atravessa os vários níveis do Mercado já estariam terminando de recolher suas quinquilharias à venda e estariam rumando para seus respectivos compartimento. Mas não hoje.
Há uma tensão velada no ar, a preocupação estampada em cada rosto que cruza com o meu. Ouço algumas pessoas sussurrando umas com as outra, e aqui e ali capto uma palavra solta. Arco, verificação, queimando.
Tento me erguer por cima de uma aglomeração para poder ver o que está acontecendo, e posso identificar alguns uniformes cinza-chumbo por entre a multidão. Meu sangue gela. Eu já tinha conseguido escapar de verificações aleatórias antes, mas em nenhuma delas eu tinha me alimentado recentemente, nem em uma quantidade tão grande quanto a que eu absorvi hoje. Me pergunto se a minha travessura com o alarme de incêndio mais cedo tem alguma coisa a ver. Que droga Rob, bela hora para estar certo!
No centro, posso ver que há alguns agentes aplicando o teste Kriston nas pessoas, que formaram uma espécie bizarra de fila em volta deles. Parte dos portões que levam ao Setor 3, mais alguns agentes estão de guarda para apenas deixar passar quem passou pelo teste. Minha primeira reação é tentar voltar para a loja e esperar que eles desistam por essa noite. Mas logo vejo que há mais agentes vigiando o lugar por onde entrei, e se eu voltar agora vai parecer muito suspeito. Eu estou encurralada, e eu não tenho certeza se consigo simular uma queimadura hoje.
Mas eu sempre tenho mais uma carta na manga.
Me esgueiro por entre a multidão e a passos centos me aproximo da saída para o Setor 3. As pessoas em volta da saída estão nervosas, e há tanta tensão no ar que é quase como se eu pudesse sentir a estática gerada por ela. Por mais que muita gente apoie a perseguição implacável aos Supernovas, todos odeiam quando isso interfere em suas rotinas.
- VOCÊS NÃO TEM O DIREITO DE NOS PRENDER AQUI! – eu ouço uma voz irritada entoar do lado esquerdo da saída.
Uma mulher alta e magra e um homem mais baixo estão em uma discussão acalorada com um dos agentes, e pela cara dele ele parece que está perdendo, a julgar pela falta de cor em seu rosto. Um agente que está do lado direito vai em socorro ao colega, deixando apenas mais um que está um pouco mais afastado para vigiar esse lado. É a minha deixa. Me esgueiro por meio das pessoas e tento me aproximar de onde ficam as grades dos portões. Felizmente, o agente que deixou seu posto deixou uma das passagens entreaberta, provavelmente confiando que ninguém teria coragem de desafiar o todo-poderoso Arco. A mulher da discussão obviamente não pensa assim.
De fininho, vou me esgueirando em meio à pessoas, e logo já posso ver a abertura bem de perto. Só mais um pouquinho...
- Onde é que a senhorita pensa que vai? – me pergunta um dos agentes, colocando braço na minha frente, bloqueando o meu caminho.
Meu sangue gela. Eu poderia correr, poderia atacá-lo. Nunca tentei, mas sei que um choque bem dado pode parar o coração de um homem em uma fração de segundo. Todavia, qualquer uma dessas opções significa entregar a minha situação, e por mais que eu consiga escapar do Mercado, jamais poderia escapar do Complexo. Anos de um disfarce cuidadoso iriam para o lixo em apenas um instante. Ao invés disso, resolvo usar a segunda melhor arma no meu arsenal.
- Mas senhor, eu preciso muito chegar logo ao Setor 3, é muito importante.
- E que grande importância seria essa, posso saber?
Com um pouco de esforço, tento conjurar novamente as lágrimas em meus olhos. Há uma tarja presa na lapela do Agente que diz que o nome dele é Tyson. Ele tem três vezes o meu peso, e pelo menos vez e meia minha altura. O rosto é redondo e rude, apesar de não ser muito velho, já exala autoridade, e não no bom sentido. Espero que não seja tão esperto quanto é assustador.
- Não posso dizer – digo em meio a um soluço engasgado.
Ele me olha de cima, a irritação em seus olhos.
- Não pode ou não quer? Não me interessa se a sua avó esteja pegando fogo, todos tem que passar pelo teste para poderem deixar o Mercado. – ele diz, apontando para o outro aglomerado de pessoas comuns e Agentes no centro do Mercado.
Incentivo as lágrimas mais um pouco e continuo.
- Mas eu não posso ficar aqui! – Enterro o rosto nas mãos e começo a chorar um pouco mais alto – Ele disse que a criança não era dele! Mas como, eu nunca fiquei com mais ninguém! Ele me disse coisas horríveis! – Choro mais alto ainda, para que todos os que estão em volta ouçam. Parece que está funcionando, pois a mulher irritada de antes parece ter se calado – Se eu encontrar com ele aqui, eu não sei se vou suportar!
- Deixa a moça ir! – ouço alguém gritar, mas é um apelo fraco e distante. Ao contrário do Agente que eu tinha encontrado mais cedo, esse não ficou nem um pouco movido com a minha história. Na verdade, acho que passou e me desprezar um pouco mais.
Meu conto não é nada aleatório. Eu escolhi essa encenação porque é uma cena que justamente ocorre muito aqui no Complexo. Pelo que eu conheço do mundo antigo, naquele tempo as pessoas escolhiam quantos filhos queriam ter, e não eram muitos. Mas como a humanidade foi drasticamente reduzida, foi decidido que todo o tipo de controle de natalidade fosse proibido. É por isso que há poucas mulheres no Arco e em outros cargos mais importantes: nós não passamos de reprodutoras, destinadas a repovoar a Terra. O que eu não entendo é se ainda temos uma Terra para repovoar. Não há nada lá fora, e o espaço do Complexo não parece aumentar.
De qualquer maneira, é como se fossemos incentivados a nos reproduzir, o que acaba gerando novelas como a que eu estou simulando.
As pessoas formaram um círculo em nossa volta, e eu faço um espetáculo de limpar as lágrimas de crocodilo do meu rosto. O agente que tinha deixado seu posto, voltou agora para averiguar a situação do outro colega.
Se o agente Tyson, com quem eu tinha falado até então, me olhava como se eu fosse uma barata que ele estivesse prestes a esmagar com a sua bota, o outro parecia... bom, nem tenho uma analogia decente para o jeito que ele me olhava. Se eu achei que já tinha recebido um olhar com mais gelo que a aquele na vida, com certeza eu não lembro. Era mais que indiferença, era mais para um ódio frio mesmo, desprezo, nojo, tudo junto. Ag. Roman era o que estava escrito no uniforme dele.
Na verdade, se a situação fosse outra, tipo se ele não fosse um maldito agente do Arco, talvez, apenas talvez eu o achasse até bem decente. Ele não devia ter muito mais de vinte e poucos, os olhos verdes e o cabelo castanho claro daquele tipo que dá vontade de passar as mãos o dia inteiro... Para de frescura, Ellie! Tenho que repreender a mim mesma por ficar pensando bobagens em uma hora tão despropícia.
- Não me interessa em que tipo de problemas a senhorita se meteu – o agente Roman disse, a voz como aço afiado – Vai ter que esperar junto com todo o resto.
E então ele me segura pelo braço e me empurra, mas com muita força, e eu vou de encontro ao chão. Não lembro exatamente como fui parar ali, só sei que sinto uma dor terrível em minha testa, minha cabeça está latejando. Sinto um conjunto de mãos tentando me reerguer, e aos poucos começo a identificar várias vozes em uma discussão acalorada.
- Que tipo de gente horrível você é. - Alguém dizia – jogando uma moça, grávida ainda, no chão desse jeito!
-Isso é o que ela diz – o agente Tyson diz.
- Não interessa o que ela diz ou não diz! – me viro, e vejo que a voz pertence à mulher que estava discutindo antes.- Vocês do Arco se acham os deuses por aqui, que podem fazer o que quiserem, mas vocês já foram longe demais. Essa menina tem cara de um maldito Supernova para vocês? Ela só estava desesperada, e vocês a agridem como covardes.
- E os nossos direitos? – diz o homem que a acompanhava, provavelmente seu marido. – Eu sou amigo pessoal do Administrador Johnson, e ele não vai ficar nada feliz quando ficar sabendo do modo como estamos sendo tratados!
Eu não acho que o Administrador Johnson, ou qualquer pessoa do Setor 1 dê qualquer atenção ao modo como as pessoas do Setor 3 são ou não são tratadas, mas é bom ouvir alguém em minha defesa.
Várias vozes se juntam em coro à voz do senhor que estava me defendendo, e logo um tumulto se forma perto da saída. As pessoas começam a gritar e empurrar, sem controle, e eu sinto sendo esmagada em meio a todos esses corpos enfurecidos. Nunca tinha visto tantas pessoas enfrentarem o Arco dessa maneira. Nunca sequer achei que fosse possível. Se eles soubessem que estão defendendo uma Filha da Supernova, uma vil criminosa como a maioria deles acreditam...
Pelo canto do olho vejo um agente do Arco mais velho, os cabelos braços achando espaço em meio aos negro,s se aproximando. Pelas insígnias no uniforme, suponho que ele seja um dos comandantes, e ele cochicha algo para o agente Tyson.  Ele não parece nada feliz, e chama o agente Roman para junto dele e o comandante lhe dirige duas palavras ríspidas. O agente Roman não pareceu nada feliz de ter sido repreendido por minha causa, e sai dali batendo os pés no concreto do Chão do Mercado. Os outros agentes que estava próximos abrem caminho pela multidão, e logo depois as saídas são desobstruídas.
Assim que ouço os som das dobradiças se abrindo, sinto os braços das pessoas que estavam me apoiando começarem a se mover e eu vou junto com eles, e logo já estamos atravessando o túnel que leva ao setor 3.
- Oh, querida, sinto muito, esses malditos Cinzas são um brutamontes mesmo. Você tem certeza que está bem mesmo?
- Tenho – eu digo, meio sem graça. Essas pessoas se arriscaram muito ao me defender, mas não gostaria de estar aqui se eles soubessem que a minha condição é de mentira – Obrigada- eu digo, meio sem graça e louca para sair correndo dali.
- Eu e o George aqui já estamos cheios desses caras, se não fossem os Filhos da Supernova, bem que a gente poderia passar sem eles! – ela olha para os lados – Em que nível você mora, querida? Talvez a gente possa te acompanhar até lá.
- Eu moro no nível 12 – eu minto. – Mas não é necessário não, logo eu vou ficar bem.
Ela pareceu um pouco decepcionada, até demais para o meu gosto.
- Bom, de qualquer jeito acho que você deveria ir até o refeitório ver se consegue um punhado de gelo pra a sua testa, acho que vai ficar bem roxo! – eu assinto, tentando terminar o assunto, mas a mulher não parece estar disposta a parar de falar – Bom, se você precisar de qualquer coisa ou se esses Cinzas te incomodarem de novo, vá até o nível 25 e pergunte pela Janet ou pelo George.
- Claro! – eu digo tentando fazer parecer que é exatamente isso que eu vou fazer. Até parece. – Minha mãe deve estar procurada.
- Oh, claro queridinha, e eu aqui lhe prendendo – Janet respondeu – Mas tome cuidado!
Eu assenti e já fui tomando caminho antes que ela quisesse continuar a conversa.
Durante o resto do meu trajeto até o meu compartimento, não consigo deixar de estremecer toda a vez que lembro do que acabou de ocorrer. Eu estive muito, mas muito mesmo perto de der descoberta. Se a aquele agente não tivesse me empurrado e as pessoas tivessem iniciado um tumulto, inevitavelmente agora eu teria falhado no teste Kriston e já estaria a meio caminho do Setor 7, provavelmente já a caminho do lugar para onde todos os Supernovas vão, e eu tenho certeza que não é nem um pouco agradável por lá.


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