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domingo, 15 de setembro de 2013

Capítulo 7 - Sobre codinomes e gosma azul

- Você tem livros? – Aggi me pergunta enquanto descemos as escadas do Setor 3. Nos cinco minutos desde que fui relegada a ficar de babá e Aggi e Tom, ela já me interrogou sobre quase tudo em minha vida. Eu tive que usar todo o meu arsenal de repostas do tipo “sair pela tangente”.
Quantos anos você tem? Dezessete.
Você tem namorado? Não.
Você vai à escola? Não mais.
No que você trabalha? Com eletrônicos.
Como o seu cabelo ficou dessa cor? Sempre foi dessa cor.
Você gosta de histórias de princesa? Credo, nem pensar!
Qual a sua cor preferida? No momento, roxo.
Sério, a quantidade que o irmão dela não fala, ela consegue cobrir. Dez vezes mais.    
- Não – eu respondo – eles são inflamáveis. – e me concentro em descer as escadas, tentando não rolar para baixo até o refeitório, porque minha cabeça está girando, girando... Bom, a culpa deve ter sido minha, por achar que esse dia não tinha como piorar. Sempre pode piorar. Fato.
E tinha piorado muito no instante em que minha mãe pôs os seus pés embalados em salto alto (antiguidades raras, custaram uma fortuna) dentro do nosso compartimento. Quem estivesse assistindo, nunca diria que estava assistindo o reencontro de duas irmãs, mas sim de duas velhas inimigas de infância que costumavam puxar os cabelos uma da outra. Naquele momento, tenho que ser sincera, preferiria a companhia de um esquadrão do Arco.
- Arianna – ela disse friamente, depois de se recuperar do choque de encontrar a irmã em sua sala. Eu pude notar que ela estava apertando as unhas contras as palmas das mãos; suponho que era no intuito de evitar que ela fossem parar no rosto da irmã.
- Laura – Arianna respondeu, mas sei a frieza com que ouviu seu próprio nome. – Acho que você deve saber porque eu estou aqui.
- Não, não sei. Porque você não me lembra mesmo?
Arianna já estava pronta para responder, mas mudou de ideia e olhou em minha direção. Laura entendeu a deixa antes de mim, e logo já foi se dirigindo a mim, a voz um pouco mais doce que o habitual.
- Ellie, querida- ela disse. Querida! Essa eu nunca tinha ouvido na vida. –você poderia levar essas... crianças para dar um passeio? – ela disse crianças com a mesma entonação que se referiria a um rato, se bem que ratos e crianças existem em abundancia no Complexo, e minha mãe parece ter o mesmo tipo de carinho com os dois.
Eu queria protestar. Queria ficar lá e saber qual era a causa dessa confusão toda. Mas Laura consegue ser mais assustadora quando tenta ser minimamente mais afável. No fim até agradeci por sair dali.
E então logo eu estava rumando ao refeitório do Setor 3, acompanhada de duas crianças, uma sepucralmente quieta e outra que não sabia calar a boca. Aggi havia ficado animada em conhecer o resto do setor, mas Tom fez um protesto silencioso, se agarrando ao casaco da mãe. Porém, ela deve ter feito algum tipo de feitiço, pois bastou algumas poucas palavras sussurradas no ouvido dele para que ele cedesse e me acompanhasse.
E foi aí que começou o interrogatório.
- O que é “inflamável”? – Aggi me pergunta agora, me trazendo de volta à realidade. Cruzes! Ela parece uma metralhadora de perguntas.
- Que pega fogo.
- Ah, mas então eles deviam fazer uns que não pegam fogo.
Eu exalo todo o ar dos meus pulmões. Nunca fui muito chegada a crianças, e isso certamente não está ajudando.
- Não há mais árvores, não é? Não tem como fazer mais papel.
Eu pessoalmente nunca vi um livro na vida. Os que se salvaram depois do Cataclismo foram recolhidos pelo governo, perigo de incêndio, esse tipo de desculpa. Pra falar a verdade, eles são difíceis de achar até no mercado negro, e olha que eu já vi de tudo por lá. Nem sequer na escola os tínhamos, onde a maioria das lições tinham que ser decoradas oralmente.Nada disso nunca me pareceu estranho, mas ter uma pirralha de seis anos me interrogando por causa de livros com certeza é.
Sei que vou me arrepender disso, mas...
- Por que, você tem livros lá no Setor 4, é? – é a minha vez de fazer perguntas.
Aggi chega mais perto e fala mais baixo.
- Não conta pra ninguém, - ela diz, com um sorrisinho malicioso – Mas eu tenho um monte!
Ou ela está mentindo ou essa família é bem menos comum do que eu pensei... Bom, talvez esse passeio possa render algumas informações, afinal.
Eu já havia engatilhado um milhão de perguntas sobre a suposta biblioteca de Aggi, mas na hora de dispará-las me dei conta que estávamos já à frente das grandes portas duplas de aço do refeitório.
A essa hora o lugar já estava quase vazio, com um ou outro gato pingado no meio das grandes mesas cercadas de bancos de alumínio que compõe o salão cavernoso do refeitório. Apontei para uma mesa afastada e instrui a Aggi que me esperasse por lá. Ela pegou a mão de Tom, que não surpreendentemente, emitiu apenas silêncio. Nem seus passos faziam qualquer barulho. Ele parecia um fantasma assustado com o mundo dos vivos.
Há um balcão de metal e vidro em um dos cantos do refeitório. Dentro dele estão expostas toda a variedade de comida: proteína rosa, proteína amarela. E um mingau azul. Advinha o que é? Proteína. Quer dizer, a gente chama de proteína, mas na verdade é um PBN: Preparado Balanceado Nutricionalmente, composto de proteínas, carboidratos e a dose necessária de vitaminas.
Também chamamos às vezes gororoba.
A rosa é a mais cara porque é a mais doce, portanto o gosto é o menos pior. De qualquer jeito, é terrível. Bom, não é à toa que a maioria das pessoas aqui estão eternamente de mal com a vida, eu é que não queria ter que depender disso. Se bem que eu me forço a comer do mesmo jeito, sabe, para manter as aparências.
E o maior exemplo de estar de mal coma vida está bem na minha frente, empunhando uma concha como se empunhasse uma espada. Bom, aquela concha é de fato a arma dela. O nome dela é Harriet, e nos dez anos que a vejo servir comida aqui, ela nunca deu um sorriso. Ela tem uma verruga na bochecha esquerda de onde cresce um único e longo pelo preto. Ele é meio que uma caricatura de uma bruxa de historias infantis, só que essa aí serve um negócio intragável ao invés de viver em uma casa de doces.
Não há fila a essa hora, o que é uma vantagem. Agora a desvantagem: quando chego um pouco mais perto, noto que há apenas uma grande panela no balcão, e ela está cheio de uma papa azul. Ninguém merece o azul.
A velha Harriet deve ter notado a expressão de desdém no meu rosto, pois logo ouço a sua voz rouca ecoar nos meus ouvidos.
- Vai querer ou vai só ficar admirando?
- Três, - eu murmuro, quase inaudivelmente. Ela pega três tigelas e as enche sem cerimônia, enquanto eu tento evitar olhar em seus olhos, em sua verruga, ou no pelo da verruga...
Ela passa a bandeja com as tigelas por cima do balcão com um baque, e já está apontando uma arma na minha direção. Bom, não uma arma de verdade, mas uma leitora de códigos, e eu lhe estendo o meu pulso esquerdo, onde está a minha pulseira.
As pulseiras são como a sua identidade aqui no Complexo. Elas possuem informações sobre quem você é, identificam o Setor de onde você veio e são também a moeda corrente por aqui. É claro que existe uma moeda “paralela”, que chamamos de Ferro. Porque esse nome, eu não sei, já que as moedas são de Níquel.
A máquina faz um bipe quando lê as informações na minha pulseira, e a refeição está paga, e imediatamente eu já estou a caminho da mesa onde duas crianças me esperam.
                Coloco a bandeja com três tigelas de uma gosma turquesa na mesa, e me sento, Aggi e Tom estão sentados do outro lado da mesa. A menina pega uma das tigelas e oferece ao irmão, que não pareceu muito feliz ao ver a comida em sua frente.
- Ele não gosta muito da azul. – Aggi me explica.
- Desculpa, garoto, mas é só o que tinha. – eu digo para Tom. Ele não responde, nem parece reagir a nada do que eu faça ou diga. – Ele pode me escutar? – eu pergunto, dessa vez para a irmã dele.
- Ele escuta sim. Só não gosta de falar. – ela responde.
- Vocês já o levaram a um médico?
- Já, mas ele disse que não sabe qual o problema dele. Papai diz que vai sumir com o tempo, mas que até lá eu tenho que cuidar dele.
- Porque você é a mais velha.
- Não, eu sou a mais nova.
Acho que eu não devo ter parecido muito convencida, porque ela logo emendou:
- Mas só por sete minutos.
- Ah, vocês são gêmeos.
- É. Papai disse que nós somos especiais por causa disso.
De uma forma ou de outra, Aggi sempre consegue trazer à tona o assunte de seu pai. Talvez seja aí que eu deva investigar, ignorando a ironia de agora ser eu a fazer todas as perguntas.Me certifico que não há ninguém perto o suficiente para escutar a conversa. Não há, mas mesmo assim abaixo o tom de minha voz.
- E o seu pai, ele leu isso em um daqueles livros que você me falou?
Aggi engole uma colherada da proteína azul, e me olha nos fundo dos olhos.
- Não sei, mas ele mexe bastante nos livros.
- São livros sobre o que?
- Histórias.
- Histórias?
- É, histórias. Às vezes ele lê algumas para mim e o Tom antes de dormir. Ele diz que são todos de histórias.
- E que tipo de histórias?
- Sobre aventuras, princesas, unicórnios e bruxos do mal, esse tipo de coisa. Mas ele disse que é segredo,que eu não posso contar pra ninguém.
- Mas você está contando para mim.
Ela pareceu intrigada pela primeira vez. Talvez não tivesse feito a relação que o fato de guardar segredo envolvia não falar sobre ele em primeiro lugar.
- Mas você é confiável.
Esse com certeza é um adjetivo que eu nunca apliquei a mim mesma. Bom, talvez no sentido daquela velha camaradagem compulsória entre criminosos, mas eu não chamaria isso de uma confiança verdadeira.
- Como você sabe que eu sou confiável?
Aggi novamente prende o meu olhar, como se pudesse ver no fundo da minha alma. Definitivamente essa menina é assustadora.
- Eu só sei. Eu sempre sei. – ela diz, e volta a se concentrar na proteína. Ao lado dela, Tom apenas brinca com a colher no negocio, e pela primeira vez parece que ele está se divertindo. Bom, ele achou um uso bem melhor para o negocio azul do que come-lo, tenho que reconhecer. É aí que eu percebo que nem toquei na minha tigela, e imediatamente a puxo e forço uma colherada.
- E o seu pai? Qual é o nome dele? – eu pergunto a Aggi.
- Porque você quer saber?
- Bom, eu trabalho em uma eletrônica. Talvez eu o tenha visto na loja. Ele vai muito ao Mercado?
- Não, ele manda os amigos dele no lugar.
- Ele tem muitos amigos?
- Tem, mas ele é meio que um chefe deles.
- Hum,e como esses amigos o chamam?
- Faraday.
O nome não me é estranho, e por alguns momentos me perco na minha memória atrás do nome fugitivo. Onde eu já ouvi esse nome antes? Aliás, não um nome, mas um codinome, já que é óbvio que é um nome inventado usado pelos traficantes. Eles se acham muito refinados por usarem nomes de cientistas do passado.
E então tudo faz sentido.
Oh, com certeza Rob e eu teremos uma conversa muito interessante amanhã.


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