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domingo, 15 de setembro de 2013

Capítulo 6 - Fantasmas de estrelas esquecidas

Felizmente o compartimento que divido com minha mãe está completamente vazio quando eu chego. Aposto todo o meu dinheiro (que não é assim tão pouco – ei, vocês achavam que eu roubava eletricidade de graça?) que ela aproveitou a confusão no Mercado para fugir do trabalho e dar uma escapada com o seu namorado... que eu nem sei mais quem é. Ela tem tantos que manter um registro mental de todos era muito esforço para nenhum resultado. Até hoje eu não entendo como ela conseguiu ter uma filha só. Não foi por falta de fazer, com certeza.
Há muito tempo de eu deixei de me importar com o que a minha mãe faz da vida dela, desde que não interfira na minha. Não que ela se importe muito com o que acontece na minha, afinal.
É um compartimento padrão do Setor 3. Paredes cinzas e levemente manchadas pela umidade e portas de aço, móveis de alumínio. A decoração desse lugar é uma gigantesca ode à cor cinza. À entrada há uma pequena sala com apenas uma mesa e cadeiras, e na perde oposta há as portas que levam aos dois quartos minúsculos e um banheiro que consegue ser menor ainda. Acomodações de luxo, de fato. Não queira saber como é no Setor 4, se bem que eu pessoalmente nunca vi.  
Ao contrário das casas no Velho Mundo, nós não temos cozinhas aqui, já que fazemos todas as refeições no refeitório de cada setor. Eu deveria ter ido lá mais cedo só para “bater o ponto”, mas com essa confusão toda eu simplesmente não tive ânimo para mais atuações. Além disso, por incrível que pareça, as refeições de proteína conseguem ter um gosto ainda pior a cada semana. Era de se pensar que desse para se acostumar, mas vai por mim, não dá para se acostumar com o gosto daquele negócio, mesmo comendo-o quase diariamente desde que nasci.
No centro da parede que está oposta as portas, está aquela que é a estrela da popularidade no Complexo. A televisão. Afinal, o que mais há para se fazer em um buraco além de estar comatosamente absorvido pela narrativa televisiva? Bom, o segundo esporte do Complexo é a fofoca, e depois o sexo. Nessa ordem. Mas é através dessa pequena janela para o novo mundo em que podemos nos esquecer de nossas miseráveis vidas. Na verdade, é a única coisa por aqui que lembra uma janela, já que as televisões são soldadas à parede em um buraco apenas um pouco maior que a sua caixa, fechado com mais uma placa de aço para evitar o temido roubo da eletricidade, como se alguém fosse estúpido o suficiente para tentar roubar em sua própria casa. Hum, talvez na casa dos outros... Não, não é uma ideia muito boa. Muitos alarmes, contadores, olhos alheios, coisa e tal.
Mas as televisões não são de graça, bom, nada aqui no Complexo é. Mas ninguém ousaria não ter uma, bom, ao menos aqui no Setor 3 é assim. Mas também não há uma grande disponibilidade delas, então as que estragam vão para lojas como a de Rob, eternamente recicladas assim como os clássicos que elas exibem.
Porém, eu nunca costumo assisti-las. Me dão fome.
Aquela estática que puxa os seus pelinhos do braço, sabe? Ótimo petisco.
Vou até o banheiro para tentar limpar um pouco da sujeira, e assim que me olho no espelho vejo o resultado da situação que eu consegui me meter mais cedo. Não machucou muito, mas há um pouquinho de sangue em minha testa no local em que a minha cabeça atingiu o chão. Posso ser resistente a queimaduras, mas parece que eu não sou nada invulnerável no departamento de “ser atirada ao chão por um agente babaca do Arco”. Abro a torneira e... surpresa! Não tem água. Um pulo rápido até os registros na parte de trás da porta do compartimento e posso contatar o motivo. Minha mãe, sempre altruísta e temperada, conseguiu acabar com a nossa cota de água. O que me deixa na difícil decisão entre passar quinze dias sem banho ou gastar todo o meu dinheiro para pagar a enorme multa para religar a água. Exalo todo o ar de meus pulmões. Eu simplesmente não tenho cabeça para lidar com isso agora.
Bom, já que qualquer limpeza está fora de questão, ao menos posso aproveitar o fato de estar sozinha em casa. Não que eu nãocostume estar, mas é que eu realmente aproveito quando estou. Debaixo da estreita estrutura de alumínio que eu chamo de cama, há uma pequena caixa de metal. Ela possui uma fechadura que um dia teve uma chave, mas há muito tempo ela já enferrujou, portanto, ela fica aberta mesmo. Bom, ela não contém nada de ilegal, nem sequer precioso, mas se um dia o Complexo ruísse, ficaria muito em dúvida entre salvar a minha pele e essa caixa. Pois o seu conteúdo não é só para os meus olhos; mas para a posteridade, se ela tiver a capacidade de entender a mensagem.
Remexo nos vários objetos antigos e encontro o que estou procurando. É um objeto cilíndrico, de metal, parecido com uma lanterna, com uma espécie de lâmpada na ponta. Mas é muito mais do que uma lanterna.
Com cuidado (afinal, é uma antiguidade!) eu retiro a tampa do compartimento que um dia abrigou as pilhas do aparelho, e coloco as pontas dos meus dedos nos contatos. É nesse momento que o meu mundo se acende.
A luz emerge da outra ponta, indo bater nas paredes cinzas do meu minúsculo quarto e no teto que as cobre. Mas não é qualquer luz, mas uma projeção. Nas minhas mãos eu tenho um pequeno projetor de mais de um século, e mesmo assim ele é capaz de projetar aos meus olhos o que talvez seja o único vislumbre da liberdade que jamais terei.
E elas dançam para mim no filme projetado. As galáxias, as estrela, os planetas. De todas as cores, as nébulas caminham preguiçosamente na imensidão. Elas chamam meu nome, e eu sei o nome delas de cor: Áries, Orion, o Cruzeiro do Sul. E olha, lá está Carina, como se nada tivesse acontecido, como se seu fantasma debochasse de nós. É claro que são apenas um lembrança esquecida; uma ilusão. Sei muito bem que, mesmo na remota possibilidade de eu um dia chegar à superfície, ainda assim elas estariam perdidas para mim. Talvez eu saiba o que esteja perdendo afinal, e isso dói. Mas parece que eu gosto de me torturar.
Eu me deito na cama e apenas contemplo, um olho aberto e o outro pesando.
Estou quase pegando no sono quando ouço uma batida nervosa na porta. Minha mente gira procurando e descartando suspeitos da identidade de um visitante à essa hora, e logo minha mente estaciona no Arco. Será que eles vieram por causa do que ocorreu mais cedo? Será que descobriram o que eu sou? Se bem que se eles soubessem que eu sou uma Supernova, eles nem iriam se dar ao trabalho de bater na porta. Eu ainda estou tentando decidir se abro a porta ou finjo que ninguém está quando o visitante misterioso volta a bater, com mais força ainda. Por fim decido me levantar e abrir a porta, apenas rezando para não ver nenhum uniforme cinza.
Felizmente não é o que eu encontro, se bem que eu teria me surpreendido bem menos se fosse.
Quando abro a porta, me deparo com uma versão bizarra de um universo paralelo de minha mãe. Ela tem os mesmos cabelos loiros e figura esguia, até a mesma altura que ela. Mas seus olhos são obviamente mais cansados, com olheiras profundas, e enquanto minha mãe tem os deslumbrantes cabelos longos arrumas em cachos calculadamente deslumbrantes, ela os tem amarrados em um rabo de cavalo baixo e simples. E... há algo como medo em seu olhar. Não, pior que isso, terror; um terror gelado e paralisante.
Em sua mão direita está agarrada uma menina pequena, de mais ou menos uns seis anos, muito parecida comigo nessa idade, exceto que os cabelos dela são muito mais cinzentos. Ela tem um brilho afiado no olhar, bem incomum para uma criança tão pequena, e isso a torna até um pouco assustadora. Já na mão direita da mulher está agarrado um menino, bom, e agarrado mesmo. Ele puxa mão dela e se esconde por trás de sua perna, como se a visão de mim fosse a equivalente de ver um bicho papão.
- Ellie? – A mulher pergunta, com incerteza e nervosismo na voz.
- Ahn, sim – eu digo meio perdida
- Eu não sei se você se lembra de mim, mas o meu nome é Arianna. Sou a irmã da Laura.
- Oh, claro – eu digo, fingindo que me lembro bem de quem ela é – minha mãe está sempre falando de você
- Então eu não acho que estamos falando da mesma pessoa. A minha irmã nunca ia desperdiçar cinco minutos da sua vida falando de mim.
Respiro um pouco aliviada. Ela deve ser mesmo irmã da minha mãe. Talvez eu me lembre vagamente de uma vez ou outra minha mãe citando de leve que tinha uma irmã quando ainda vivia no setor 4. Há uma vida atrás, ela ainda era apenas mais uma operária com um trabalho exaustivamente desagradável. Até que tudo mudou quando, não sei exatamente como, ela conseguiu abrir caminho até a cama de um dos Administradores, e então nove meses depois eu surgi ao mundo. Bastou apenas um pouco de chantagem (afinal seria uma boa fofoca um Administrador ter engravidado uma operária – e menor de idade ainda por cima!) e a passagem de minha mãe para o Setor 3 estava paga. Aparentemente esse benefício não foi estendido à sua família. Acho que ela nem sequer me levaria junto, mas aí seria estranho chantagear um político com uma filha sem nem saber por onde ela anda.
- Olha, me desculpe incomodar a essa hora, mas sua mãe está? É muito importante que eu fale com ela.
-Não, ela não está. Talvez se você voltar outra hora...
- NÃO! – ela quase grita, o nervosismo à flor da pele. Ela olha rapidamente para os dois lados do corredor. – Ellie, por favor, é muito importante! Se eu puder esperar ela aqui, juro não atrapalhar o que quer que você esteja fazendo.
Eu fico em cima do muro. Obviamente seria mais sábio dizer que não posso. Está na cara que ela está com um problema, e dos grandes, e eu já tenho problemas meus o suficiente para lidar por hoje, obrigada. Por outro lado... ela está com medo de algo, e ainda tem as crianças. OK, eu admito, eu tenho o coração um pouco mole.
Exalo o ar dos pulmões e cedo o espaço à porta, permitindo a entrada de Arianna e as duas crianças. Fecho a porta atrás deles e lhes ofereço as cadeiras. Eu fico em pé.
- Ellie, me desculpa aparecer desse jeito, mas confie em mim quando eu digo que é uma emergência.
- Tudo bem, - eu digo.- eu posso perguntar o motivo da sua... visita? Acho meio difícil que você tenha ficado com saudades da Laura.
Arianna dá uma risada, forçada e nervosa.
- Apenas alguns negócios antigos, - ela diz vagamente – Nada de mais.
- Hum- Já vi que ela não parece estar muito inclinada a me contar o motivo de sua visita, e talvez eu não queira saber mesmo. Mas a curiosidade é mais forte. Bom, eu sei que se eu contornar posso descobrir alguma coisa..
- Bom, eu acho que você não conhece essa dupla ainda – ela disse, acenando em direção às crianças – Essa é a Agatha e ele é o Thomas.
- Aggi! O papai me chama de Aggi, não Agatha! – exclama a menina. Arianna não pareceu muito feliz com o comentário, e lhe lançou um olhar reprovador. Hum, problemas em casa, não é? Posso puxar essa meada um pouquinho.
- E você? - Eu pergunto ao menino, que não fez som algum desde que chegou – Como você quer que eu te chame?
Ele não responde , nem sequer me olha nos olhos.
- Ele não fala – me explica Aggi. – mas pode chamar ele de Tom. O pai nos chama assim.
- Não fala? Mas por quê? – eu pergunto antes que possa segurar a língua. Suponho que não seja muito educado perguntar esse tipo de coisa. Não que eu tenha o costume de ser educada mesmo. Aggi já estava se preparando para responder, mas sua mãe a interrompe no ato.
- Ele simplesmente não fala. – seu tom demonstra que ela não quer demorar no assunto. Um silêncio constrangedor se abate sobre nós. Tento desviar o olhar, e logo noto as mãos de Arianna, que eu não havia notado antes pois estava escondidas pelas mangas do casaco. Elas são... azuis. Não como um Smurf, mas algo doentio e acinzentado. Aqui até o azul fica cinza. Tarde demais percebo que ela notou que eu estava encarando. Ela ergue as mãos para que eu possa ver melhor.
- Tanques de proteína – ela diz simplesmente. No setor 4 é onde vivem os operários que trabalham nas máquinas que produzem tudo o que nos permite viver no Complexo. E isso inclui desde reciclagem de dejetos até a manufatura das nossas roupas. As intragáveis refeições de proteína que temos que comer também são feitas lá, feitas por bactérias (não sei exatamente como é o processo, só sei que é feito por bactérias geneticamente modificadas). Aparentemente, não fazem nada bem para a pele.
É claro que as refeições de proteína não são o único alimento do Complexo. Existem algumas culturas hidropônicas então temos desde tomates até laranjas às vezes, e até há laboratórios que fazem carne cultivada. Mas é claro que esse tipo de alimento não está disponível sempre, sendo reservado apenas para ocasiões especiais como o Dia da União, por exemplo. Se bem que há sempre murmúrios contando que no Setor 2, onde vivem as pessoas mais importantes do Complexo e as famílias dos Administradores, esses dias são bem mais abundantes. Tipo, quase sempre. Mas é claro, o Complexo adora um boato.
- Vocês não tem luvas lá?
- Tínhamos, até uns dez anos atrás. Mas elas acabaram e os Administradores não acharam que a cor da pele do pessoal era tão importante assim. De qualquer jeito, em uns seis meses sai quase tudo. É claro, se você parar de mexer nos tanques.- havia uma nota de tristeza em meio ao seu tom irônico que me fez me sentir mal por todas as vezes que reclamei do Setor 3. Ela abriu a boca para dizer mais algum coisa, mas o que quer que ela fosse dizer acabou ficando perdido no denso ar daquela pequena sala.

Me sobressalto ao ouvir os raspar das chaves no mecanismo da fechadura da porta, que ecoam pelo aço, gritando um lamento metálico. Minha mãe chegou mais cedo do que eu esperava. E então a porta se abre, e pela primeira vez em muitos anos vejo surpresa nos olhos maquiados de minha mãe. Aliás, um bocado dela. E não é uma surpresa boa, ao que aparenta.

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